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Porto Velho,05/04/2026

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O Mercado não nos rejeita por incapacidade, mas por conveniência

Para muitos de nós, sustentar essa máscara social é exaustivo e, por vezes, impossível.


O Mercado não nos rejeita por incapacidade, mas por conveniência O autor é advogado e autista.

Existe um número que deveria tirar o sono de qualquer gestor ou colega de profissão: 85% dos autistas estão fora do mercado de trabalho. E não, isso não é uma coincidência estatística ou reflexo de falta de competência. É exclusão pura e simples, daquelas que acontecem no silêncio de uma entrevista ou na ausência de uma indicação.

Falo isso como advogado autista que sente na pele como o "perfil profissional" muitas vezes vale mais que o domínio da lei. Na advocacia, o julgamento raramente é apenas técnico; ele é estético. Somos avaliados pelo carro, pelo corte do terno, pela capacidade de fazer small talk em eventos. Para muitos de nós, sustentar essa máscara social é exaustivo e, por vezes, impossível. O mercado lê nossa objetividade como "falta de postura" e nosso foco técnico como "dificuldade de comunicação".

O que ninguém vê é o custo invisível dessa barreira. O colega que evita indicar ou o cliente que recua diante de um jeito mais direto de falar não percebem que estão empurrando um profissional brilhante para o abismo da instabilidade. E a conta chega: é a ansiedade que explode, a depressão que se instala e uma desorganização emocional profunda causada por promessas vazias de quem diz que vai contratar, mas desaparece na hora de pagar.

A verdade é que muitos autistas escrevem melhor, constroem raciocínios mais lógicos e são muito mais precisos do que a média dos profissionais "neurotípicos padrão". No Direito, isso deveria ser uma vantagem competitiva absurda. Mas, enquanto o mercado continuar exigindo performance social em vez de capacidade técnica, continuaremos sendo deixados de fora. Não nos falta talento. Falta ao mundo a coragem de se adaptar ao que é diferente.


Jessé Nogueira é autista, advogado criminalista e vice-presidente Comissão Especial de Defesa da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rondônia (OAB-R0).




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