Quando a mãe atípica sofre violência e se cala
Sobrecarga extrema, isolamento e o medo do abandono criam um "ponto cego" na rede de proteção, onde mães de crianças com deficiência suportam agressões para garantir a sobrevivência dos filhos.
Para romper o ciclo da violência, é urgente que o tema deixe de ser um tabu na comunidade atípica. / Imagem: Freepik A exaustão de uma mãe atípica não é apenas cansaço; é um estado de alerta contínuo comparável ao estresse pós-traumático. O ambiente de seu lar é marcado por rotinas intensas e sobrecargas, atravessadas por tensões, crises sensoriais e privação de sono. Especialistas apontam que essa sobrecarga recai quase exclusivamente sobre a mulher, gerando níveis elevados de estresse que impactam a dinâmica conjugal.
Com a falta de rede de apoio e a incompreensão do parceiro sobre os impactos no emocional dessa mãe atípica, muitas vezes os conflitos em casa descambam para o extremo absurdo da violência. Embora os casos sejam subnotificados, a imprensa registrou barbáries como o crime ocorrido em 2024 em Itapetininga (SP), onde uma mãe atípica e sua filha foram mortas a facadas pelo marido. Um filho autista de 7 anos presenciou a cena.
A arma do silêncio: o medo do abandono
Há casos em que a mãe atípica é refém do agressor. Muitas, ao cogitarem a denúncia, são ameaçadas com o abandono. O medo de se tornar mãe solo e ter que cuidar sozinha de um filho que exige atenção 24 horas — o que muitas vezes a impede de trabalhar fora — força o silêncio. Essa vulnerabilidade vira munição para o agressor, que sente a segurança de que não será denunciado.
A estatística do abandono
Dados indicam que cerca de 78% dos pais abandonam as mães de crianças com deficiência. O agressor usa esse dado como ferramenta de controle: "Se você me denunciar, eu sumo!". Sob essa tortura psicológica, a mulher se convence de que não sobreviverá sem a ajuda financeira do parceiro, por mais tóxico que ele seja.
Rompendo o tabu e estreitando laços
Para romper o ciclo da violência, é urgente que o tema deixe de ser um tabu. O abuso doméstico precisa estar no centro do debate da comunidade atípica. A rede de relacionamentos entre essas mães deve ir além das telas e dos grupos virtuais; é preciso cultivar vínculos profundos e seguros para que uma mãe se sinta acolhida ao confidenciar que sofre agressões.
Nesse contexto de conscientização, a violência contra a mulher será o tema central da roda de conversa promovida pelo Ministério Público de Rondônia (MPRO) e pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) no próximo dia 17 de março. A participação da comunidade atípica e das lideranças de coletivos de mães é fundamental para dar voz a essa realidade específica.
Iniciativas como as do MPRO e MPT buscam integrar os serviços de atendimento para que a rede de proteção compreenda um ponto crucial: a mulher precisa de medidas protetivas, mas também de uma rede de cuidado — estatal e comunitária — que substitua o suporte do agressor. Somente assim será possível desarmar a estratégia do abusador, que se utiliza da vulnerabilidade da mãe atípica para se manter impune.

Precisa de ajuda?
O Ligue 180 (Violência contra a mulher) e o Disque 100 (Direitos Humanos) são canais gratuitos para denúncias. Procure também coletivos locais de mães atípicas. A união é a primeira ferramenta de libertação.




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