Crise autista não é crime - por Jessé Nogueira
Punir uma crise é, na verdade, punir o nosso corpo por reagir a um ambiente que se recusa a nos entender.
Imagem: Freepik Para a comunidade atípica, a crise não é uma escolha ou "falta de educação"; é o limite absoluto de um sistema nervoso em curto-circuito. Seja um meltdown ruidoso ou um shutdown silencioso, o que ocorre é uma tentativa desesperada do cérebro de sobreviver a uma sobrecarga insuportável.
O problema é que o mundo — e especialmente o sistema judiciário — insiste em ler esse grito de socorro como ameaça. Onde deveria haver acolhimento, sobra truculência. Uma abordagem despreparada, com luzes, gritos e toques inesperados, torna-se o gatilho perfeito para uma reação instintiva que acaba fichada como "desacato" ou "resistência".
Precisamos bater o pé: o Direito Penal só deve punir quem age com consciência e controle. Punir uma crise é, na verdade, punir o nosso corpo por reagir a um ambiente que se recusa a nos entender. Transformar uma condição neurobiológica em caso de polícia não é justiça, é desconhecimento institucional. Lutar por essa compreensão é, acima de tudo, uma questão de sobrevivência e dignidade para todos nós.
O autor Jessé Nogueira Gomes é uma pessoa autista, advogado criminalista, especialista em Direitos das Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e vice-presidente da Comissão Especial de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB Rondônia.




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