Livro debate autismo e saúde indígena sob a perspectiva dos povos originários
A obra propõe uma reflexão crítica sobre o modo como o Estado brasileiro e as políticas públicas historicamente trataram os povos indígenas, especialmente nas áreas da saúde mental, deficiência e inclusão escolar.
A publicação da Editora Juruá já está disponível em formato físico e digital. / Divulgação Uma obra inédita no Brasil está chamando atenção por abordar um tema ainda pouco discutido na academia, nas políticas públicas e nos debates sobre inclusão: a visão dos povos indígenas sobre deficiência, transtornos mentais e autismo.
Os pesquisadores Lucelmo Lacerda de Brito e Priscila Enrique de Oliveira lançaram um livro considerado pioneiro ao reunir estudos, reflexões acadêmicas e narrativas indígenas sobre saúde, educação inclusiva e neurodivergência em territórios originários.
Lucelmo Lacerda é pós-doutor em Psicologia, desenvolve pesquisas nos Estados Unidos e é uma das maiores referências do Brasil em Educação Inclusiva. Priscila de Oliveira é professora, doutora pela Unicamp e pesquisadora na área de saúde indígena.
Reflexão crítica
Com 160 páginas, em versões impressa e digital, a obra propõe uma reflexão crítica sobre o modo como o Estado brasileiro e as políticas públicas historicamente trataram os povos indígenas, especialmente nas áreas da saúde mental, deficiência e inclusão escolar.
Segundo a sinopse, o livro nasce da “lacuna existente nos estudos acadêmicos sobre as perspectivas indígenas sobre deficiências e transtornos mentais, especialmente no caso do autismo”. Os autores defendem que as políticas públicas frequentemente são elaboradas de forma verticalizada e colonialista, sem considerar as cosmovisões, os modos de vida e os conhecimentos tradicionais dos povos originários.
A publicação destaca que diferentes etnias possuem formas próprias de compreender o corpo, o sofrimento, a doença, a deficiência e os processos de cura, muitas vezes em desacordo com os modelos biomédicos ocidentais. Em vez de ignorar essas diferenças, os autores propõem caminhos de diálogo entre ciência, educação, saúde pública e saberes ancestrais.
Saúde indígena e inclusão
Entre os temas abordados estão:
• a visão indígena sobre saúde, doença e deficiência;
• as limitações das políticas públicas voltadas aos povos originários;
• os impactos culturais dos diagnósticos psiquiátricos;
• a inclusão de estudantes indígenas com deficiência;
• experiências envolvendo autismo em aldeias;
• e propostas de intervenção baseadas no diálogo comunitário.
O livro também analisa experiências em comunidades indígenas, como a Terra Indígena Ribeirão Silveira, em São Sebastião (SP), e a Aldeia Manga, no Oiapoque (AP), território do povo Karipuna.
Um dos capítulos, escrito por Tyrone dos Santos, aborda o tema “O Autismo na Aldeia Manga”, trazendo relatos sobre famílias indígenas com filhos autistas, práticas de cura xamânica e a visão de lideranças indígenas sobre o transtorno.
Outro destaque é o capítulo assinado por Liliane Lima Bizantino, que apresenta “uma visão ancestral” sobre o autismo a partir da cultura do povo Kokama, discutindo cosmovisão, identidade e tradição indígena.
Debate necessário
A obra também provoca reflexões sobre o risco de interpretações equivocadas feitas por profissionais da saúde e educação ao lidarem com comportamentos indígenas considerados “inadequados” pela ótica ocidental.
Os autores defendem que diferenças culturais não podem ser automaticamente tratadas como deficiência ou transtorno mental, e que políticas inclusivas precisam respeitar a autonomia, a identidade e os conhecimentos tradicionais dos povos originários.
Além do debate acadêmico, o livro surge em um momento em que cresce a discussão sobre inclusão escolar, saúde mental, direitos indígenas e neurodivergência no Brasil.
Quem são os autores
Lucelmo Lacerda de Brito é professor e pesquisador visitante na Universidade da
Carolina do Norte, doutor em Educação pela PUC-SP e pós-doutor em
Psicologia pela UFSCar. Participou da formulação do Parecer 50 do
Conselho Nacional de Educação, referência na orientação da educação
inclusiva para estudantes autistas no Brasil.
Priscila Enrique de Oliveira é graduada em História e Pedagogia, doutora pela UNICAMP e pesquisadora da área de saúde indígena. Atua como professora especialista em Atendimento Educacional Especializado (AEE).
A publicação da Editora Juruá já está disponível em formato físico e digital. Tem o prefácio assinado por Rejane Pafej Kanhgág e contou com a colaboração de Liliane Lima Bizantino e Tyrone dos Santos,




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