Francesca Happé destaca mudanças no conceito de autismo e alerta para desafios ainda pouco compreendidos
Professora de Neurociência Cognitiva no King’s College London, no Reino Unido, Francesca Happé é reconhecida internacionalmente por suas contribuições ao estudo do autismo.
Neurocientista britânica Francesca Happé. / Foto: Divulgação. Uma das palestras mais aguardadas da programação sobre autismo no Congresso Brain 2026 foi ministrada pela neurocientista britânica Francesca Happé, referência mundial na pesquisa sobre o espectro autista. Responsável por abordar o tema do crescimento dos diagnósticos de autismo, a especialista apresentou uma análise abrangente sobre as transformações na compreensão científica do transtorno nas últimas décadas e os impactos dessas mudanças para a pesquisa, os serviços de saúde e a prática clínica.
Realizado entre os dias 3 e 6 de junho, em Porto Alegre (RS), o Congresso Brain 2026 (Congress on Brain, Behavior and Emotions) reuniu milhares de pesquisadores, profissionais da saúde e estudantes em um dos maiores eventos científicos da América Latina voltados às áreas de neurociência, neurologia, psiquiatria e saúde mental.
Professora de Neurociência Cognitiva no King’s College London, no Reino Unido, Francesca Happé é reconhecida internacionalmente por suas contribuições ao estudo do autismo. Sua trajetória inclui pesquisas pioneiras sobre cognição social, saúde mental, envelhecimento e diferenças de apresentação do autismo em grupos historicamente pouco estudados, como mulheres e idosos.
Durante sua participação no congresso, a pesquisadora abordou diferentes aspectos relacionados ao espectro autista, destacando que o aumento dos diagnósticos observado em diversos países não pode ser explicado apenas por uma maior incidência da condição. Segundo ela, mudanças nos critérios diagnósticos, ampliação do conceito de espectro e maior conscientização da sociedade e dos profissionais de saúde contribuíram significativamente para o crescimento dos números registrados nas últimas décadas.
Um conceito em constante transformação
Ao discutir o tema “Autismo: mudanças no conceito e implicações para a pesquisa e a prática”, Happé explicou que a compreensão do autismo evoluiu profundamente desde as primeiras descrições clínicas realizadas no século passado. O que antes era visto como uma condição rara e restrita a perfis mais severos passou a ser entendido como um espectro amplo, com diferentes formas de manifestação, níveis de suporte e características individuais.
A pesquisadora destacou que essa ampliação trouxe avanços importantes para o reconhecimento de pessoas que anteriormente passavam despercebidas pelos sistemas de saúde, mas também gerou novos desafios para pesquisadores e profissionais clínicos. Entre eles, a necessidade de compreender melhor a enorme diversidade existente dentro do espectro e desenvolver estratégias de atendimento mais individualizadas.
Mulheres e meninas: uma população historicamente invisibilizada
Outro tema de destaque foi o autismo em mulheres e meninas, considerado um dos campos de pesquisa que mais crescem atualmente.
Francesca Happé ressaltou que muitos conhecimentos sobre autismo foram construídos a partir de estudos predominantemente realizados com meninos, o que contribuiu para que características frequentemente observadas em meninas permanecessem sub-reconhecidas por décadas.
Segundo a especialista, mulheres autistas podem apresentar estratégias de adaptação social, conhecidas como "camuflagem" ou "masking", que dificultam a identificação dos sinais do transtorno. Como consequência, muitas recebem diagnóstico tardio ou passam grande parte da vida sem compreender as razões de suas dificuldades sociais, emocionais e sensoriais.
Vulnerabilidade, trauma e saúde mental
Ao abordar sobre “Cérebros em transformação: vulnerabilidade, diversidade e resiliência – Autismo, trauma e saúde mental”, Happé tocou em uma das áreas mais relevantes da pesquisa contemporânea.
Ela destacou que pessoas autistas apresentam taxas significativamente mais elevadas de problemas relacionados à saúde mental quando comparadas à população geral. Ansiedade, depressão, estresse crônico e experiências traumáticas podem estar associados tanto às características do autismo quanto às dificuldades enfrentadas em ambientes pouco adaptados às suas necessidades.
A pesquisadora defendeu uma abordagem que considere simultaneamente as vulnerabilidades e as potencialidades dos indivíduos autistas, valorizando estratégias de apoio que promovam qualidade de vida, autonomia e participação social.
O envelhecimento no espectro
Um dos assuntos menos discutidos, mas que vem ganhando importância internacionalmente, foi o envelhecimento das pessoas autistas.
Na apresentação sobre as chamadas “síndromes sombra” na adolescência e na vida adulta, Francesca Happé chamou atenção para o fato de que a primeira geração amplamente diagnosticada com autismo está chegando à meia-idade e à velhice, enquanto a produção científica sobre essa etapa da vida ainda permanece limitada.
A especialista destacou a necessidade de ampliar pesquisas sobre envelhecimento, saúde física, saúde mental, independência funcional e redes de apoio para adultos e idosos autistas, uma vez que muitos serviços continuam concentrados na infância.
Referência mundial no estudo do autismo
Membro da British Academy e da Academy of Medical Sciences, Francesca Happé já presidiu a International Society for Autism Research (INSAR), principal organização científica internacional dedicada ao tema.
Ao longo da carreira, recebeu importantes reconhecimentos acadêmicos, incluindo a Medalha Spearman e o President’s Award da British Psychological Society, o Prêmio da Experimental Psychology Society e o Prêmio Rosalind Franklin da Royal Society.
Em 2021, foi nomeada Comandante da Ordem do Império Britânico (CBE) pela Rainha Elizabeth II, em reconhecimento às suas contribuições para a pesquisa sobre autismo.
Sua participação no Brain 2026 reforçou a importância de compreender o autismo como uma condição complexa, diversa e presente ao longo de toda a vida, destacando a necessidade de pesquisas que contemplem diferentes perfis, faixas etárias e realidades sociais, em um momento em que o crescimento dos diagnósticos continua despertando debates em todo o mundo.




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