Quando a Copa não chega à sala da mãe atípica

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Porto Velho,25/07/2026

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Quando a Copa não chega à sala da mãe atípica

Enquanto milhões de brasileiros torciam, a mãe estava ocupada tentando impedir que o filho se machucasse durante uma crise, evitando cabeçadas contra a parede...


Quando a Copa não chega à sala da mãe atípica Nesse cenário, a Copa do Mundo passa despercebida.

A poucos meses da Copa do Mundo de 2026, uma pesquisa do IBOPE Repucom revelou que o interesse feminino pelo torneio atingiu seu maior patamar histórico. Segundo o levantamento, 71% das mulheres brasileiras conectadas se declaram fãs da competição, colocando homens e mulheres em condições praticamente iguais no acompanhamento do maior evento do futebol mundial.

O percentual é relevante, porém não representa a realidade de um grupo feminino com um cotidiano completamente atípico. São mães que dedicam suas vidas aos cuidados de filhos com autismo profundo e outras condições que exigem acompanhamento permanente, suporte intensivo e disponibilidade integral. Para muitas delas, a Copa do Mundo simplesmente não chega à sala de casa.

É importante fazer uma distinção. Nem toda deficiência impõe o mesmo grau de demanda aos cuidadores. Uma mãe de uma pessoa com deficiência física, por exemplo, pode acompanhar uma partida ao lado do filho. Da mesma forma, muitas mães de autistas com menor necessidade de suporte conseguem encontrar tempo em suas rotinas para o entretenimento, como assistir aos jogos da Seleção Brasileira.

Mas, quando falamos de autismo profundo, falamos de outra realidade. São famílias que convivem com desafios que ultrapassam a ideia convencional de cuidado. Lidam com crianças, adolescentes e adultos que apresentam ausência de fala, comportamentos disruptivos graves como autoagressão, heteroagressividade, crises severas, tentativas de fuga, destruição de patrimônio e dependência total até mesmo para atividades básicas da vida diária.

Muitos não conseguem sequer sinalizar necessidades simples, como beber água ou ir ao banheiro. Também não são capazes de compreender as próprias emoções nem identificar uma dor física. Nesses casos, a agressividade muitas vezes acaba se tornando a única resposta possível diante de algo que não conseguem entender ou comunicar.

Nesse cenário, a Copa do Mundo passa despercebida. Porque, na casa dessa mãe, tudo gira em outra órbita. Assistir aos jogos reunida com parentes, amigos ou em uma praça de alimentação de shopping é outro privilégio distante para muitas mães atípicas que cuidam de filhos com autismo profundo. 

Os comportamentos considerados inadequados pela sociedade acabam isolando não apenas o filho, mas também a mãe, que permanece confinada a uma rotina exaustiva dentro de uma casa vazia. Em muitos lares, sequer existe televisão na sala. Não por escolha. Porque o aparelho foi destruído — assim como tantos outros objetos.

E a alternativa de assistir pelo celular também não é tão simples. Primeiro, porque a mãe muitas vezes precisa usar o aparelho de forma restrita e fora da vista do filho. Ele não tem noção de limites. Quer permanecer conectado o tempo todo e entra em crise quando o acesso lhe é negado. 

Além disso, o único tempo que sobra para essa mãe é quando o filho dorme — sabe-se lá quando. Mas ela já está tão cansada e emocionalmente esgotada que dificilmente conseguirá assistir ao compacto do jogo ou aos melhores momentos da partida, transmitida no horário em que ela estava concentrada em tarefas muito mais urgentes.

Enquanto milhões de brasileiros torciam, a mãe estava ocupada tentando impedir que o filho se machucasse durante uma crise, evitando cabeçadas contra a parede, prevenindo uma fuga ou simplesmente dedicada à rotina de cuidados de alguém que depende dela para tudo.

As pesquisas medem interesse. Não medem disponibilidade

Muitas dessas mães atípicas gostam de futebol. Acompanharam os jogos da Seleção Brasileira desde a infância. A questão é que, hoje, o tempo delas é quase todo dedicado ao filho. Cuidam dele durante o dia, à noite e, em muitos casos, também durante a madrugada, quando o filho está com o sono desregulado.

Enquanto 71% das mulheres brasileiras consultadas pelo IBOPE Repucom estarão conectadas à Copa do Mundo, acompanhando os jogos da Seleção e debatendo escalações, desempenho dos jogadores e decisões do técnico, outro grupo de mulheres, fora da arquibancada e invisível para as estatísticas, estará focado no enfrentamento de desafios extremos, descomunais e, para muitos, inimagináveis.

Quando o país parar para torcer, vibrar, entrar em campo junto com o time e esquecer dos problemas durante a eufórica comemoração de um gol, uma sociedade paralela continuará em outro campo, onde não podem se distrair por um instante. Precisam manter os olhos e a atenção constantes no filho. Não podem simplesmente desligar as preocupações por noventa minutos.

E, nesse campo da sobrecarga de demandas e do estresse — muitas vezes sem sequer contar com um time de apoio — elas também gritam. Mas não para comemorar. Gritam para extravasar, quando estão chegando ao ápice da exaustão.

A maior vitória delas não será um hexacampeonato mundial. Será o desenvolvimento do filho. E, para si mesmas, desejam muito pouco. Enquanto o Brasil sonha com mais uma estrela na camisa da Seleção, superando as favoritas do Mundial, essas mães atípicas sonham apenas com um pouco de descanso e um pouco de apoio.

O autor, Lucas Tatuy (@lucastatuy), é jornalista, escritor, editor do Imprensa Atípica, autista e pai de uma adolescente com autismo profundo.




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