“Imersão no Autismo Adulto” amplia a compreensão sobre a pessoa no espectro
A proposta do evento foi abordar aspectos ainda pouco discutidos sobre o autismo na fase adulta,
O evento deu protagonismo às vozes autistas. Com palestrantes no espectro autista — um juiz de Direito, uma médica psiquiatra e neurocientista e um jornalista —, a “Imersão no Autismo Adulto” , evento realizado na sexta-feira (12) no auditório do Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia (TRE-RO), trouxe abordagens sobre aspectos ainda pouco discutidos do autismo na fase adulta, incluindo o funcionamento do cérebro autista, comportamentos, desafios e perdas nas relações sociais, sofrimentos invisíveis e as barreiras institucionais que ainda precisam ser rompidas.
A abertura foi realizada pelo vice-presidente do TRE-RO e corregedor
regional eleitoral, Daniel Ribeiro Lagos, que deu as boas-vindas ao
público e destacou a importância do momento de aprendizado e
conscientização. Em sua fala, agradeceu aos palestrantes pela
disponibilidade em compartilhar conhecimentos fundamentais para
desconstruir estigmas e reforçou que o autismo não se limita à infância.
Na sequência, o público acompanhou uma apresentação cultural do aluno da Apae de Porto Velho, Emerson Vale, autista nível de suporte 2, que realizou uma performance de dança interpretando um dos sucessos do cantor Michael Jackson, levando arte e inclusão ao evento, com autenticidade.
O silêncio institucional
A primeira palestra foi ministrada pelo juiz de Direito Flávio Henrique de Melo, com o tema “Autismo na vida adulta: o silêncio institucional que ainda precisamos romper”. O magistrado abordou desafios relacionados aos direitos, acessibilidade e inclusão da pessoa autista, trazendo reflexões sobre situações que ainda permanecem invisibilizadas nas instituições.
Doutor em Ciências Jurídicas, pesquisador e autor de estudos científicos, Flávio de Melo possui atuação nacional na área de acessibilidade e inclusão, como diretor-geral de Acessibilidade da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), integrante do Comitê Permanente de Acessibilidade e Inclusão de Pessoas com Deficiência do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Comitê de Acessibilidade e Inclusão do Tribunal de Justiça de Rondônia.
À trajetória profissional, Flávio de Melo soma a experiência pessoal como pai atípico de uma criança autista e como uma pessoa também no espectro, diagnosticada há dois anos.
Durante a palestra, o magistrado apresentou ações práticas que vêm sendo implementadas em sua atuação judiciária, como a preocupação em identificar previamente se uma pessoa envolvida em um processo possui diagnóstico de autismo ou outra deficiência antes da realização de audiências. A iniciativa busca ampliar o olhar sobre o indivíduo, considerando suas necessidades, características e possíveis adaptações necessárias no ambiente judicial.
Para o juiz Flávio de Melo, embora os avanços institucionais sejam fundamentais, a transformação também depende de atitudes individuais. “A mudança começa a partir de cada um fazendo a sua parte”, destacou durante sua apresentação. O magistrado também reforçou a importância da participação ativa das pessoas autistas na construção dessas mudanças, destacando o lema: “Nada sobre nós sem nós”.
Sofrimentos invisíveis
O jornalista Lucas Tatuy apresentou a palestra “Desafios dos autistas nas relações sociais, prejuízos e sofrimentos invisíveis”, trazendo reflexões baseadas em sua trajetória pessoal e profissional.
Com uma carreira consolidada na comunicação rondoniense, com passagens pelo jornal impresso O Estadão do Norte, atuação como chefe de Imprensa no Governo de Rondônia e diretor de Comunicação da Câmara de Vereadores de Porto Velho, Lucas ressignificou sua trajetória profissional e pessoal a partir das vivências com a filha autista. Aos 48 anos, também recebeu o diagnóstico de autismo, encontrando respostas para questionamentos que o acompanharam ao longo da vida.
Lucas abordou os desafios enfrentados por ele e por muitos outros adultos autistas que passaram anos sem identificação e que, após receberem o diagnóstico, ainda precisam lidar com a desinformação e a desconfiança de pessoas que reconhecem o autismo a partir de estereótipos. Ele destacou que essa visão limitada ignora os diversos desafios, prejuízos e sofrimentos invisíveis vivenciados por autistas adultos nos mais diferentes aspectos da vida.
O jornalista abriu e encerrou sua palestra utilizando a música para interagir com o público, tocando ukulele e convidando todos a cantar. Ele compartilhou que a prática musical funciona como uma ferramenta de autorregulação em sua rotina e também no cuidado com a filha adolescente com autismo profundo, nível 3 de suporte e sem comunicação verbal.
Neurociência e quebra de limitações
A médica Larissa Assunção, diagnosticada com autismo e Savant, abordou o tema “Entendendo o cérebro e os comportamentos do autista adulto”, trazendo uma perspectiva baseada na Neurociência e em sua própria história.
Larissa compartilhou aspectos de sua trajetória, relatando que aprendeu a ler antes de desenvolver a fala e destacando os contrastes da dupla excepcionalidade presente em sua vida: dificuldades em atividades consideradas simples — como amarrar o cadarço do tênis — coexistindo com habilidades de alta complexidade, como a realização de procedimentos cirúrgicos e o domínio de instrumentos musicais, como guitarra e bateria.
A médica apresentou informações sobre os avanços da neurociência no entendimento do cérebro autista, a importância de uma abordagem multidisciplinar e os impactos do capacitismo na vida de pessoas que fogem dos padrões considerados convencionais pela sociedade.
Diagnosticada na infância com autismo nível 3 de suporte e inicialmente considerada incapaz de aprender, Larissa construiu uma trajetória acadêmica e profissional marcada por conquistas. Aos 14 anos ingressou na graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Posteriormente, formou-se em Medicina.
Larissa tornou-se médica perita, especialista em Psiquiatria, pesquisadora, neurocientista, cientista social, mestre em Antropologia e Anatomia Forense, além de realizar formações em instituições internacionais, incluindo especializações em Neurociências pela Universidade Duke e estudos em Neuroimagem pela renomada Universidade Johns Hopkins.
Ao compartilhar sua experiência, destacou a importância de enxergar cada pessoa autista em sua singularidade e não pelas limitações impostas por preconceitos.
Reconhecimento
Ao final das palestras, foi aberto espaço para perguntas do público aos convidados, seguido de um coffee break e momentos de interação.
Para Elisângela Tivanello, odontopediatra, servidora do TRE-RO e uma das organizadoras do evento, a iniciativa reforçou a importância de ampliar o debate sobre o autismo para além da infância. Ela destacou ainda que as palestras contribuíram para a construção de um olhar mais humanizado sobre a pessoa autista, considerando suas singularidades, desafios e potencialidades.
A psicóloga Marcilene da Silva avaliou que o encontro uniu ciência e vivências.
“Foi um evento completo, reunindo conhecimentos científicos e experiências pessoais. A partir do olhar para si mesmos e da percepção de questões fundamentais do direito, da inclusão e do indivíduo autista em sua singularidade, os palestrantes proporcionaram, de fato, uma imersão no autismo adulto. Foi um momento enriquecedor”, afirmou.
O advogado e autista Jessé Nogueira também destacou a relevância da programação.
“Foi um evento com autistas como protagonistas, falando do autismo adulto com a propriedade de quem vive essa realidade na essência. Além das teorias fundamentais, trouxeram experiências e realidades que ainda estão ausentes das pautas sobre autismo adulto. Foi um evento muito necessário”, declarou.




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