Investimento na assistência social ainda não alcança famílias atípicas em Rondônia
Apesar da proposta de aprimorar a aplicação dos recursos públicos, o debate ainda gira, majoritariamente, em torno de números, equipamentos e estrutura administrativa
Encontro reuniu gestores e técnicos da Assistência Social, em Porto Velho, / Foto: Divulgação Enquanto o Governo de Rondônia reforça o discurso de fortalecimento da assistência social, a realidade de muitas famílias que cuidam de pessoas com deficiência — especialmente autistas com alto nível de suporte — ainda revela lacunas entre o planejamento técnico e o atendimento concreto.
Na sexta-feira (17), em Porto Velho, foi realizada a 3ª edição do evento Fundo Nacional da Assistência Social pelo Brasil (FNAS pelo Brasil), promovido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), com apoio da Secretaria de Estado da Mulher, da Família, da Assistência e do Desenvolvimento Social (Seas). O encontro reuniu gestores, técnicos e contadores dos 52 municípios rondonienses para discutir a gestão dos recursos do Sistema Único de Assistência Social (Suas).
Apesar da proposta de aprimorar a aplicação dos recursos públicos, o debate ainda gira, majoritariamente, em torno de números, equipamentos e estrutura administrativa — distante da realidade cotidiana de famílias que enfrentam sobrecarga extrema e ainda sofrem com a falta de assistência digna na educação e na saúde.
Dados apresentados pela Seas destacam investimentos como a aquisição de tablets, notebooks e camionetes, somando cerca de R$ 20,7 milhões, além de R$ 9,6 milhões destinados à estruturação de unidades como os Centros de Referência de Assistência Social (Cras). No papel, os avanços são significativos. Na prática, porém, muitas famílias sequer conseguem acessar esses serviços de forma efetiva.
Exemplos dessas falhas são recorrentes e graves. Na rede pública de saúde, há ausência de exames especializados, como a ressonância magnética com sedação — procedimento essencial para pessoas com deficiência que apresentam comportamentos autolesivos, como crises com cabeçadas. Em situações em que há risco de lesão neurológica, mesmo com solicitação médica de urgência, o exame não é providenciado.
Também há ausência de atendimento psiquiátrico de emergência, deixando famílias sem suporte em momentos de crise aguda. Nas escolas, o número de cuidadores e professores de apoio é insuficiente para atender alunos com deficiência, o que compromete não apenas a aprendizagem, mas a segurança dessas crianças e adolescentes.
Outro ponto negligenciado é a alimentação escolar. Faltam políticas efetivas para atender necessidades específicas, como estudantes com diabetes, intolerância à lactose ou outras restrições alimentares, o que evidencia uma inclusão que, muitas vezes, existe apenas no papel. E a carência de profissionais capacitados para lidar com casos complexos, como o autismo, nível de suporte 3, agrava ainda mais o cenário.
Além disso, famílias relatam falta de sensibilidade na análise de pedidos de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), frequentemente negados mesmo diante de laudos médicos que comprovam a inexistência de tratamento adequado na rede local. A negativa empurra essas famílias para o Judiciário, obrigando-as a enfrentar longas batalhas judiciais para garantir direitos básicos.
Entre 2020 e 2025, o cofinanciamento estadual alcançou cerca de R$ 66 milhões. Ainda assim, o volume de recursos não tem sido suficiente para responder à complexidade das demandas, especialmente quando se trata de famílias cuidadoras que vivem sob estresse crônico, isolamento social e, muitas vezes, empobrecimento progressivo.
A fala institucional reforça o compromisso com a redução das vulnerabilidades, mas pouco se discute sobre um ponto central: quem cuida também precisa de cuidado.
Sem políticas estruturadas de apoio às família atípicas — como atendimento domiciliar, suporte psicológico contínuo, programas de descanso do cuidador (respiro) e integração efetiva entre assistência social, saúde e educação —, a rede de proteção segue fragmentada e insuficiente.
O desafio não é apenas melhorar a gestão dos recursos, mas garantir que eles se traduzam em presença concreta na vida de quem mais precisa. Porque, para milhares de famílias atípicas, a ausência do Estado não aparece em relatórios — aparece no cansaço extremo, na solidão e na luta diária para sustentar um cuidado que deveria ser compartilhado.




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