Criar uma carteira da mãe atípica é fácil. Difícil é garantir que ela funcione
A pergunta necessária é: a nova carteira terá força para mudar isso? Porque já colecionamos leis, estatutos e carteiras de identificação que, na prática, pouco alteraram a vida das famílias atípicas
O que mães atípicas precisam não é apenas de identificação. / Imagem com recurso de IA A aprovação da Carteira da Mãe Atípica em Rondônia pela Assembleia Legislativa representa, sem dúvida, um reconhecimento importante a mulheres que vivem uma rotina marcada pela sobrecarga, exaustão e abandono institucional. O problema é que reconhecimento, sozinho, nunca garantiu direitos.
O discurso é bonito: prioridade no atendimento, acesso facilitado à saúde, assistência social, educação e apoio psicológico. Mas precisamos de tempo para assimilar e refletir se essa carteira realmente poderá transformar a realidade enfrentada diariamente por mães atípicas: filas intermináveis, falta de especialistas, burocracia, insensibilidade e negativas constantes no serviço público.
A pergunta necessária é: a nova carteira terá força para mudar isso? Porque já colecionamos leis, estatutos e carteiras de identificação que, na prática, pouco alteraram a vida das famílias atípicas. O direito existe no papel, mas desaparece no balcão da repartição, na recepção dos centros especializados de saúde e diante da ausência de estrutura do Estado.
Sem fiscalização, mudanças estruturais e humanização da rede de atendimento, a Carteira da Mãe Atípica corre o risco de se tornar apenas mais um símbolo político, que rende visibilidade e manchetes positivas para o autor da iniciativa, mas que não transforma a vida de quem vive o cuidado integral 24 horas por dia.
O que mães atípicas precisam não é apenas de identificação. Precisam de atendimento prioritário que funcione e acesso contínuo e urgente à assistência psicológica e psiquiátrica. Talvez isso tivesse salvado a mãe que colocou fim à própria vida após procurar ajuda em um Centro de Atenção Psicossocial e ouvir que precisaria aguardar 15 dias por atendimento.
As mães atípicas também precisam de atendimento humanizado. Os servidores públicos não precisam sentir empatia com as dores dessas mulheres. Mas podem, e devem ser treinados para compreender que cuidar também adoece.
A criação de canais virtuais com terapeutas, por exemplo, já seria um passo importante para reduzir a distância enfrentada por mães que vivem longe dos centros urbanos ou encontram barreiras constantes no acesso ao SUS.
Outra necessidade urgente é a criação de espaços humanizados de respiro — locais de acolhimento físico e emocional onde essas mulheres possam descansar, receber apoio e cuidar também da própria saúde mental. Porque quem cuida também precisa ser cuidado.
E a comunidade atípica, como um todo, precisa de políticas públicas estruturadas, permanentes e efetivas. Porque já não suportamos mais promessas que terminam em frustração.
Criar uma carteira é fácil. Difícil é garantir que ela funcione e transforme, de verdade, a vida da mãe atípica.
Editorial - Imprensa Atípica




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