A história de Yulys: venezuelana, confeiteira e mãe atípica
Sua história é marcada pela fé, coragem e pela capacidade de transformar a dor em recomeço.
Finalista do Concurso de Bolo Temático – 50 Anos do Senac Rondônia, Yulys Milagros Chavez representa a força de uma mulher imigrante venezuelana, mãe atípica e empreendedora, que encontrou no Brasil uma oportunidade de recomeçar.
A etapa seletiva do concurso contou com a participação de seis profissionais e ex-alunas da instituição, candidatas à criação do bolo cuja receita une técnica, sabores e simbolismo, traduzindo a trajetória e a relevância do Senac ao longo de cinco décadas.
A grande final acontece neste sábado (16), na Villa Privilege, em Porto Velho. O desafio reunirá as três profissionais finalistas em uma disputa que promete ser acirrada. Yulys Milagros está no páreo e diz estar preparada para mostrar toda a sua criatividade e talento com as mãos. Mas, independentemente do resultado, ela já é uma vencedora!
Em busca de uma nova vida no Brasil
Natural da Venezuela, Yulys Milagros Chavez desembarcou no Brasil em 2019 ao lado dos dois filhos. Na época, ainda não imaginava os desafios que enfrentaria como mãe atípica. Com o passar do tempo, descobriu que o filho caçula, Aaron Jesus, hoje com 9 anos, tem TDAH e TOD (Transtorno Opositivo Desafiador).
“Vim para o Brasil porque meu filho vivia doente e eu buscava uma chance melhor para ele e para a nossa família”, relembra.
Antes da mudança, Yulys e o esposo trabalhavam em uma empresa de costura na Venezuela. A crise econômica no país tornou a vida cada vez mais difícil, e a decisão de migrar foi motivada pela esperança de oferecer mais qualidade de vida à família.
A travessia começou com a irmã, que veio primeiro para o Brasil. Depois, trouxe o pai e, em seguida, Yulys chegou de ônibus com os filhos. A família passou por Manaus, Acre e, finalmente, Porto Velho, cidade escolhida para ficar mais próxima da irmã.
Os primeiros anos foram marcados por dificuldades e muito trabalho. Sozinha, ela começou vendendo brigadeiros nas ruas ao lado dos filhos para conseguir sobreviver e alimentar o sonho de construir uma vida melhor.
Foi em Porto Velho que a trajetória começou a mudar
Ao procurar apoio na Cáritas Porto Velho, Yulys conheceu a irmã Ossani, da Igreja São Cristóvão, a quem considera até hoje uma mãe de coração. Foi ela quem a incentivou a estudar confeitaria no Senac Rondônia e acreditou em seu potencial desde o início.
“Ela comprou minha batedeira, me ajudava com ingredientes e foi a base de tudo que consegui até hoje”, conta emocionada.
Há três anos, Yulys iniciou sua jornada na confeitaria — um ramo no qual nunca havia trabalhado antes. Mesmo enfrentando a rotina intensa de estudos durante o dia e trabalho à noite, ela persistiu. Com apoio da família, da Pastoral dos Migrantes, da instituição Luz do Alvorecer e do Senac Rondônia, conseguiu transformar a cozinha de casa em seu próprio negócio.
Seu talento começou a ganhar espaço em feiras e eventos, incluindo as comemorações do 111º aniversário de Porto Velho. Ela foi uma das confeiteiras que prepararam o bolo de 111 metros de comprimento, com capacidade para servir até 30 mil pessoas, segundo a Prefeitura.
Há cerca de um ano, Yulys passou a integrar a Rede de Mães Atípicas Empreendedoras, onde encontrou acolhimento e identificação com outras mulheres que vivem desafios semelhantes, conciliando o trabalho com os cuidados de filhos com deficiência.
“São corajosas como eu e me apoiam. Elas até se reuniram para comprar meu jaleco e a toca para que eu pudesse participar desse concurso. Estão torcendo muito por mim!”
O convite para participar do Concurso de Bolo Temático veio do professor Lucas, do Senac, que enxergou em Yulys o potencial para ir além. Incentivada pela família, especialmente pela irmã e pelo sobrinho Wesley, ela decidiu se inscrever, e conquistou a vaga entre as finalistas.
Hoje, ao olhar para trás, Yulys sente saudades de parte da família que permaneceu na Venezuela. Ainda assim, afirma que voltaria ao país natal apenas para visitar. Ela define o Brasil como “oportunidade, independência e liberdade para ver os filhos crescerem”.
Sua história é marcada pela fé, coragem e pela capacidade de transformar a dor em recomeço. Yulys não se vê com a pretensão de se tornar um símbolo de resistência, mas sua nova fase pode representar esperança para outros migrantes venezuelanos que vivem em situação de vulnerabilidade em Porto Velho.
“Se a gente acreditar, pode vencer. É só aproveitar as oportunidades e não desistir.” Essa é a mensagem da confeiteira Yulys Milagros Chavez.




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