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Porto Velho,24/02/2026

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Uma sociedade que se comove com a tragédia e ingnora o grito por socorro

A notícia do suicídio gerou uma onda de consternação nas redes sociais, mas a mobilização revelou-se apenas reativa a mais uma tragédia que não foi evitada.


Uma sociedade que se comove com a tragédia e ingnora o grito por socorro Estudos que revelam que 70% das mães apresentam indicadores severos de estresse. (Imagem: Pexels)

A recente tragédia envolvendo uma jovem mãe de apenas 26 anos, que dedicava sua vida ao cuidado integral de seu filho autista não verbal, de 6 anos, trouxe à tona uma ferida aberta na sociedade brasileira. A notícia do suicídio gerou uma onda de consternação nas redes sociais, mas a mobilização revelou-se apenas reativa a mais uma tragédia que não foi evitada.

As mesmas redes sociais estão repletas de desabafos que expõem a face mais cruel da maternidade atípica: a exaustão extrema. Contudo, essas mães são frequentemente julgadas, taxadas de "vitimistas" ou insensivelmente ignoradas por aqueles que não se movem para ajudar. Por isso, muitas acabam se calando, isoladas em uma sociedade que se comove com o desfecho trágico, mas permanece indiferente à dor cotidiana.

Relatos indicam que, sem rede de apoio e enfrentando privação de sono e solidão, a saúde da jovem mãe que desistiu da própria vida colapsou sob o peso de uma rotina de dedicação absoluta. Este caso não é um fato isolado; é o sintoma de uma crise humanitária que afeta silenciosamente milhares de mães atípicas no Brasil, em meio à falência de um sistema de cuidado estatal e social.

O diagnóstico da exaustão

Dra Joziane faz alertas A Dra. Joziane Costa Ferreira, médica, pós-graduada em Psiquiatria e no Transtorno do Espectro Autista — e que também vivencia a maternidade atípica —, alerta que a atenção e cuidados com a mãe atípica deve ser preventivo, e não apenas reativo quando a tragédia já ocorreu.

Ela enfatiza que não se pode fechar os olhos para a realidade do estresse extremo. “Pesquisas mostram sinais claros de sobrecarga. Estudos pioneiros já indicavam que 33% dessas mães convivem com incertezas sobre suas próprias habilidades e 66% carregam o fardo da culpa”, explica a médica.

Segundo a especialista, esses fatores se tornam explosivos quando somados à falta de suporte conjugal, recursos financeiros escassos, ausência de tratamento adequado e a constante luta contra a obstrução de direitos previstos em lei.

A Dra. Joziane cita dados contundentes de estudos que revelam que 70% das mães apresentam indicadores severos de estresse. Esse colapso se manifesta de formas variadas: 43% apresentam sintomas psicológicos, como ansiedade e apatia; 38% manifestam sintomas físicos, como hipertensão e taquicardia; enquanto 19% sofrem com o impacto equilibrado em ambas as áreas.

"O isolamento social e o excesso de demandas, que vão desde o ensino de atividades básicas de higiene até o treino de habilidades sociais, empurram essas mulheres para o limite", pontua.

Diante desse cenário, a médica faz um apelo por uma abordagem profissional mais humanizada e por pequenas mudanças de atitude na sociedade. “Podemos tornar o dia de uma mãe autista mais leve com gestos simples: ouvir sem julgar, ajudar em uma tarefa cotidiana ou oferecer um momento de descanso real para que ela possa se recuperar. Validar a dor dessas mães é o primeiro passo para o acolhimento”, conclui.

A ciência ratifica

Embora o Ministério da Saúde ainda enfrente o desafio das subnotificações, estudos sugerem que o índice de ideação suicida entre mães atípicas pode ser significativamente superior à média nacional, o que acende um alerta para uma crise de saúde mental até então invisibilizada.

Pesquisas publicadas no Journal of Autism and Developmental Disorders e estudos conduzidos por instituições de prestígio, como a Universidade de São Paulo (USP), confirmam a alta prevalência de estresse crônico em mães que enfrentam diariamente os desafios intensos do cuidado de filhos com deficiência. Esse cenário é o combustível para o Burnout Parental, uma síndrome de exaustão profunda que ultrapassa o cansaço comum e se manifesta pelo distanciamento emocional, exaustão física e um paralisante sentimento de incapacidade.

Sem o suporte de políticas públicas efetivas e uma rede de proteção sólida, esse quadro frequentemente evolui para a depressão maior. Nesses casos, a ideação suicida surge como um reflexo trágico da percepção de que não há saída ou descanso possível diante do abandono estatal e do isolamento social.

Outros gatilhos de adoecimento

Além da exaustão física inerente ao cuidar, a saúde mental dessas mães é corroída pelo enfrentamento constante de barreiras que impedem o acesso a direitos básicos. A necessidade de lutar judicialmente por terapias, medicamentos e pela inclusão escolar do filho configura-se como um fator adicional de adoecimento. A insensibilidade burocrática, somada à escassez de políticas públicas que ofereçam atendimento psiquiátrico de urgência e suporte terapêutico específico para o cuidador, agrava o quadro de vulnerabilidade e faz aumentar o alerta.

Em Porto Velho (RO), uma mãe solo (que preferiu o anonimato) relata como a falta de atendimento de urgência quase lhe custou a vida. Com um filho autista nível 3 de suporte, de 10 anos, ela conta que não tem o apoio nem da própria mãe.

"É só eu mesmo para cuidar. Só tenho ajuda de Deus. Foi Ele que me salvou, senão eu não estaria aqui", desabafa. No ano passado, em um quadro profundo de depressão e após um mês sem dormir, ela teve um surto psicótico. Ao buscar socorro em um centro de assistência psicossocial da capital, recebeu a resposta que não havia atendimento para aquele dia, apenas para uma semana depois.

Desorientada, ela dirigiu até o trevo após a ponte sobre o Rio Madeira, sentido Humaitá. Abandonou o carro e caminhou em direção à ponte, decidida a se jogar. Foi quando um policial militar a abordou, ao perceber em sua fisionomia que algo não estava bem. "Ele me acolheu como um anjo. Chorei muito! Coloquei pra fora todo o choro que estava preso", relata. O policial a escoltou em segurança de volta para casa.




E, crucialmente, o que o poder público e os políticos podem fazer para evitar novas vítimas? A resposta reside na transformação de projetos de lei em redes de atendimento psiquiátrico de urgência e na garantia de que a assistência ao filho não seja uma guerra judicial desgastante. O sistema não pode continuar exigindo que mães sejam heroínas para esconder sua própria incapacidade de oferecer dignidade.




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