Entre tiques e palavrões, Síndrome de Tourette ganha visibilidade nas redes
Especialistas alertam para desinformação e reforçam a importância do acolhimento
O preconceito ainda é recorrente, especialmente em ambientes escolares. (Imagem gerada com recursos de IA) A Síndrome de Tourette tem se tornado mais visível nas redes sociais nos últimos anos. Pessoas que antes evitavam exposição pública por medo de preconceito, interpretações equivocadas e bullying passaram a ocupar espaços digitais para falar abertamente sobre a condição. A iniciativa vem ajudando a desconstruir estigmas — principalmente em relação a um dos sintomas mais conhecidos e também mais mal compreendidos: a emissão involuntária de palavrões (coprolalia).
Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, a Síndrome de Tourette afeta aproximadamente 1 a cada 160 crianças em idade escolar. Já a Tourette Association of America estima que cerca de 1 em cada 100 crianças apresente algum tipo de transtorno de tique, incluindo formas mais leves.
Estudos internacionais indicam que a coprolalia ocorre em cerca de 10% a 15% dos casos — ou seja, está longe de ser uma característica universal da síndrome. Uma revisão científica publicada na revista The Lancet Psychiatry aponta que a prevalência global da Síndrome de Tourette gira em torno de 0,3% a 0,8% da população infantil, sendo mais comum em meninos do que em meninas.
O que é a Síndrome de Tourette
A condição é um
transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por tiques motores e
vocais involuntários, que surgem antes dos 18 anos. Os tiques podem
variar ao longo do tempo, tanto em intensidade quanto em forma.
A
coprolalia, quando presente, se manifesta como a vocalização
involuntária de palavras obscenas ou socialmente inadequadas.
Diferentemente do que muitos imaginam, não se trata de intenção de
ofender ou provocar — é um sintoma neurológico.
Especialistas reforçam combate ao estigma
O neurologista norte-americano Dr. Douglas W. Woods, ex-presidente da Tourette Association of America e pesquisador da Marquette University, já destacou em publicações científicas e entrevistas institucionais que o maior desafio enfrentado por pessoas com Tourette não são apenas os tiques, mas o estigma social associado a eles. Segundo ele, a desinformação amplia o sofrimento e pode impactar autoestima, desempenho escolar e relações sociais.
Especialistas também alertam para o efeito das redes sociais: ao mesmo tempo em que ampliam a conscientização, podem gerar interpretações simplificadas ou sensacionalistas da condição.
Redes sociais e representatividade
A presença crescente de criadores de conteúdo com Tourette tem permitido que o público conheça a realidade da síndrome sem caricaturas. Muitos relatam que esconder os tiques por anos gerou sofrimento emocional, enquanto a exposição consciente trouxe sensação de liberdade e pertencimento. No entanto, o preconceito ainda é recorrente, especialmente em ambientes escolares.
O que é necessário para acolher?
- Especialistas e associações apontam medidas fundamentais para promover inclusão:
- Informação baseada em evidências científicas;
- Capacitação de professores e equipes escolares;
- Políticas claras de combate ao bullying;
- Ambientes de trabalho mais flexíveis e empáticos;
- Acesso a acompanhamento médico e psicológico quando necessário.
- Ouvir a própria pessoa com Tourette sobre suas necessidades específicas também é essencial, já que a síndrome se manifesta de forma diferente em cada indivíduo.
- Visibilidade como ferramenta de transformação
Ao ocupar as redes sociais e falar abertamente sobre seus tiques — inclusive sobre a coprolalia — pessoas com Tourette vêm transformando constrangimento em diálogo público.
Mais do que viralizar vídeos, o movimento amplia uma discussão necessária: diferenças neurológicas precisam ser compreendidas com responsabilidade, ciência e empatia.




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