Escutar silêncios não é para todo mundo
Abril Azul chegou. E, com ele, surgem vozes que falam sobre nós sem viver o que vivemos. Sem carregar o peso da rotina. Sem conhecer o silêncio.
Enquanto ainda estávamos na luta pela aquisição da fala do Matheus, eu observava as outras crianças ao redor, todas tão comunicativas e espontâneas. Crianças pequenas, que não precisavam lutar para existir com dignidade. Sentavam, olhavam, sorriam, se comunicavam. Aqui não foi assim. Aqui foi o silêncio.
E, dentro desse silêncio, havia uma pergunta constante, quase dolorosa: será que um dia o Matheus vai me chamar de mamãe? Essa é uma incerteza que atravessa toda família atípica de uma criança com maior necessidade de suporte no Transtorno do Espectro Autista. Enquanto muitos diziam que era impossível, nós seguimos. Foram quase quatro anos de batalha diária. De 14h às 21h, todos os dias. Sem pausa. Sem descanso. Exaustivo, angustiante, financeiramente pesado e emocionalmente ainda mais.
Mas foi nesse caminho que eu aprendi algo que muita gente nunca vai aprender na vida inteira: eu aprendi a entender o silêncio. Um olhar diferente, uma mínima alteração na expressão, um detalhe quase imperceptível e aquilo já dizia tudo. Eu aprendi a perceber o que estava acontecendo e, muitas vezes, até o que estava por vir. Esse conhecimento nasce no silêncio absoluto. Não é qualquer silêncio. É aquele silêncio profundo, difícil, onde quase não há luz. Um lugar onde só permanece quem ama de verdade. E é dali que nasce a esperança.
Quando se chega nesse ponto, entende-se na prática o que muitos apenas leem. Porque não existe livro que prepare para isso. E é por isso que afirmo, com segurança: ninguém conhece meu filho como eu. Aprendi a entendê-lo sem perder de vista que o mundo também precisava compreendê-lo. Ele foi exposto à socialização. No início, eu era sua intérprete. Aos poucos, o trabalho deu resultado. Hoje, cada vez mais, ele fala por si e isso muda tudo. Um dia, essa luta vai ficar no passado. Vai ser lembrança.
Abril Azul chegou. E, com ele, surgem vozes que falam sobre nós sem viver o que vivemos. Sem carregar o peso da rotina. Sem conhecer o silêncio. Ocupam espaços que pertencem a quem está na linha de frente. E cabe a cada um de nós defendermos o nosso espaço. Apoiar, compreender e falar sobre o autismo é dever de todos. Mas falar no lugar das famílias é outra coisa. É desrespeito. É apagar uma luta que não é sua.
Não confunda. Não existe conhecimento maior sobre o autismo do que o de quem vive essa realidade todos os dias. De quem enfrenta, na prática, os desafios do transtorno. De quem luta por um futuro em que, finalmente, não seja mais necessário lutar. Abril azul é mês de reconhecimento de espaços de falas.
Suzane Lima é a mãe atípica do Matheus (autista), ativista da inclusão,
operadora do direito, especialista em direito da pessoa com
deficiência.




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