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Porto Velho,24/02/2026

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Brasil pode ter mais de 6 milhões de autistas. E os números do IBGE?

Metodologia adotada pelo IBGE comprometeu a abrangência e a precisão do levantamento.


 Brasil pode ter mais de 6 milhões de autistas. E os números do IBGE? Perguntas sobre autismo foram aplicadas em apenas 11% dos domicílios. (Foto: Agência IBGE)

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o número de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil. Segundo dados do Censo Demográfico 2022, 2,42 milhões de brasileiros relataram diagnóstico de autismo — o que corresponde a 1,2% da população.

Esta é a primeira vez na história que o Censo inclui perguntas sobre o TEA, um avanço fundamental para dar visibilidade a essa parcela da população, até então ignorada pelas estatísticas oficiais. No entanto, o número divulgado pode estar aquém da real prevalência do autismo no país. Isso ocorre porque a metodologia adotada pelo IBGE é apontada como um fator que comprometeu a abrangência e a precisão do levantamento.


Perguntas sobre autismo foram feitas em apenas 11% dos domicílios

Conforme documentos oficiais do próprio IBGE, o questionário da amostra — versão detalhada que continha as perguntas sobre deficiência e autismo — foi aplicado em apenas 11% dos domicílios brasileiros. Na prática, isso significa que em 9 de cada 10 residências visitadas, não houve o questionamento sobre a presença de pessoas com autismo.

Durante a realização do levantamento, mães atípicas utilizaram as redes sociais para relatar que, embora tenham recebido o recenseador, o tema TEA foi omitido da entrevista. "É como se meu filho não existisse", desabafou a mãe de uma criança autista. "Não vai mudar nada! A invisibilidade continua", criticou outra mãe.


E como é feito em outros países?

Países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália adotam metodologias mais contínuas e integradas:

- EUA (CDC): monitoram crianças de 8 anos com base em registros clínicos, escolares e psicológicos. A última estimativa, de 2020, foi de 1 em cada 36 crianças com TEA (2,8%).

- Reino Unido: usa registros de saúde e censos integrados; estimou em 2021 que 2,2% da população adulta é autista.

- Austrália: inclui autismo no censo desde 2012; registrou 0,8% da população em 2021 com autismo, com base em autodeclaração e dados cruzados do sistema de apoio à deficiência.

O Brasil pode ter mais de 6 milhões de autistas

Um artigo publicado no canal Mundo Autista, estimou que, com base em estatísticas internacionais, o Brasil pode ter ao menos 6 milhões de autistas hoje — e esse número só tende a crescer.

“O cálculo é bem simples: se a prevalência nos Estados Unidos é de 2,8% da população de crianças de 8 anos (e entre adultos isso só pode aumentar com diagnósticos tardios), no Brasil o número pode ser semelhante, já que nenhuma evidência científica indica que a prevalência seja menor aqui”.

Com base na projeção populacional de 215,9 milhões de habitantes, 1 a cada 36 pessoas resulta em 5,997 milhões de autistas. A projeção é reforçada pelo neurocientista Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, que já declarou publicamente que a prevalência do autismo deve ser parecida em qualquer país, independentemente da cultura ou do IDH.

Dado inédito, mas ainda insuficiente

Apesar de trazer pela primeira vez um número oficial, os 2,4 milhões divulgados pelo IBGE podem estar longe da realidade. Estudos internacionais apontam prevalências mais altas, e, no Brasil, há múltiplas barreiras ao diagnóstico — principalmente entre famílias de baixa renda, áreas rurais e regiões Norte e Nordeste.

Embora a inclusão do autismo no Censo 2022 represente um passo importante, o número final pode esconder mais do que revela. Aplicar perguntas sobre TEA em apenas uma parte da população já compromete a precisão. Soma-se a isso a dificuldade de diagnóstico em muitas regiões, o capacitismo institucional e o próprio estigma.

Enquanto países como Estados Unidos, Reino Unido e Austrália adotam sistemas contínuos e integrados de monitoramento, o Brasil optou por uma abordagem limitada e estatisticamente excludente. Perguntar sobre autismo em apenas uma a cada dez casas é o mesmo que perpetuar o silêncio — e manter invisível quem mais precisa ser visto.

A ausência de dados precisos tem implicações profundas: sem um retrato real da população autista, é impossível planejar políticas públicas efetivas, criar redes de cuidado adequadas ou mesmo garantir os direitos básicos da pessoa autista e de sua família atípica.




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